quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

03 – Máquina de Escrever

Quando chegou o Natal tanto Jorginho como Beatriz ganharam um presente dos pais: uma máquina de escrever. O embrulho era pesado, no formato de uma caixa, e quando o abriram ficaram surpresos e sem entender o que exatamente era aquilo.
- Pai, o que é isso? Um teclado? – perguntou Jorginho, curioso.
- Mas cadê o monitor? – emendou Beatriz.
- Também não tem fio para ligar na tomada... – observou Jorginho.
- Nada disso! – disse o pai – Essa é uma máquina de escrever.
E colocando uma folha branca no rolo, girando-o, o pai passou a teclar em cada uma das letras, escrevendo:

Feliz Natal!

- Uau! Que legal! – foi a expressão de Jorginho – A letra já sai direto no papel!!!
Beatriz não entendia como aquilo era possível. Quando utilizavam o computador, tinham que imprimir a folha através de uma impressora, mas com a máquina de escrever isso não era necessário, pois qualquer coisa que escreviam já aparecia diretamente no papel.
- Que massa! – gritou Beatriz.
- Escreve mais, papai... – pediu Jorginho.
E o pai escreveu:

Beatriz é irmão de Jorge


- Ih, pai! Você escreveu errado... – observou Beatriz.
- É mesmo! – emendou Jorginho – E agora, como você vai apagar a letra?
- Isso é fácil – respondeu o pai – e sacando do bolso um corretivo branco, tirou a tinta com um pincel e passou sobre a letra ‘o’, apagando-a.


Beatriz é irmã de Jorge


- Mas o espaço entre as palavras ficou maior nesse pedaço – disse Beatriz, apontando para o espaço entre ‘irmã’ e ‘de’.
- Isso não tem como corrigir – disse o pai, que sem perceber, acabou borrando o local onde inseriu a tinta branca, deixando o papel com aparência suja.
- Enquanto vocês brincam, eu e sua mãe vamos cumprimentar os vizinhos...
E dizendo isso, o pai foi à casa ao lado e demorou uns quarenta minutos. Quando retornou, as crianças estavam na internet, no Orkut, e a máquina de escrever, intacta, abandonada, clamava por atenção na mesinha central da sala.

Joel dos Santos Leitão – Dezembro de 2008

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

02 – Castelo de Areia

O dia amanheceu ensolarado em Mongaguá, e antes das sete horas, bem antes, Jorginho e Beatriz já andavam de um lado ao outro da casa, impacientes, não vendo o momento em que os pais acordariam para levá-los à praia. Ao lado da porta já haviam separado uns baldes de plástico e o conjunto formado por pequenas pás coloridas, molduras de tartaruga marinha, peixe e estrela-do-mar.
- Não entendo como eles dormem tanto! – era o comentário que Beatriz, que foi a primeira a levantar, fazia ao irmão.
Os pais sabiam que deveriam levantar cedo, pois além de já estarem acostumados com a energia dos filhos, preferiam ir à praia pela manhã, quando o sol ainda não estava tão forte, e o risco de queimaduras era menor.
Após um reforçado café-da-manhã, refeição que o pai dizia ser a mais importante do dia, a família dirigiu-se à praia, e quando passaram em frente à casa abandonada, Jorginho ficou colado ao pai, do seu lado esquerdo, e Beatriz encostou-se no irmão, olhando para a casa, ressabiada.
O pai, percebendo o medo dos filhos, procurou acalmá-los:
- Vocês não precisam temer essa casa – disse ele – é apenas um local onde não mora ninguém.
As crianças entreolharam-se, mas nem tiveram tempo de pensar, pois haviam chegado à praia, e mesmo antes de ser instalado o guarda-sol e as cadeiras, já estavam construindo seu castelo, certificando-se que estaria distante o suficiente do mar para, quando a maré subisse, não fosse devorado pelas ondas.
E foram cavando, cavando, cavando, até que uma piscina se fez, e de tão grande, cabiam no buraco ambos os irmãos. O castelo tornou-se enorme, chamando a atenção das crianças e adultos que por ali corriam e brincavam.
Depois de muito tempo o pai resolveu ir para casa, e fez uma brincadeira que sempre fazia para testar o conhecimento dos filhos.
- Crianças, nós chegamos à praia às oito horas, e agora, que são onze, vamos voltar para casa. Pergunto: Quanto tempo ficamos na praia?
Beatriz, que não sabia fazer contas, se antecipou e respondeu com convicção:
- Ficamos a manhã toda... acertei?! – foi a espontânea resposta de Beatriz.
- E a sua resposta, Jorginho? Quantas horas ficamos na praia? – perguntou o pai.
- Três horas, papai... – Jorginho ficou aguardando a confirmação do pai.
- Muito bem, os dois acertaram! Vamos tomar um sorvete para comemorar...
O sorveteiro, parado em frente à casa abandonada, ficou surpreso quando as crianças, mesmo diante do pai, disseram que não queriam sorvete naquela hora, e que o aceitariam mais tarde. Apostando corrida, deixaram os pais para trás e chegaram rapidamente em casa.
O pai percebeu que os filhos temiam aquela casa, e decidiu que mais tarde faria algo a respeito disso.

Joel dos Santos Leitão (Dezembro de 2008)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

01 – Na varanda

Todas as vezes que Jorginho e sua pequena irmã passavam em frente àquela casa, imediatamente arrepiavam.
Naquele dia, entretanto, a chuva ficou mais forte exatamente quando retornavam da praia, e sem encontrar alternativa, correram para a varanda na entrada da casa abandonada, pois sabiam que se voltassem molhados para sua casa, teriam castigo na certa.
A mãe deles havia recomendado:
- Não quero que vocês entrem no mar. Se chegarem molhados vão se ver comigo!!! – e dizia isso com uma cara brava, que dava medo.
E lá estavam eles, sob o pequeno telhado que momentaneamente os protegia da chuva.
A mãe, bom que se diga, nunca havia encostado um dedo sequer para maltratar as crianças, mas sabendo que eram quase incontroláveis quando em férias na cidade de Mongaguá, procurava amenizar suas travessuras.
A chuva era forte, com relâmpagos que clareavam todo o céu, e trovões que de tão fortes, quase ensurdeciam. A pequena Beatriz, que não era lá tão mais nova do que o irmão, encostou-se nele, se apertando ao seu corpo, e confortando-se com seu abraço carinhoso, pois sentia medo.
Jorginho, também com medo, procurava não demonstrá-lo, e sequer olhava para trás, pois temia até olhar para dentro da casa abandonada.
Beatriz não tinha medo da chuva. Uma amiguinha de escola lhe disse que aquela casa era estranha, e ela perguntou ao irmão:
- Joginho – era como ela o chamava, comendo a letra ‘erre’ - é verdade que essa casa é mal-assombrada?
- Não sei – foi a resposta rápida de Jorginho, que não gostava de falar nesse assunto.
- É que a Amanda, minha amiga, disse que à noite ouvem correntes arrastando e torneiras pingando nessa casa, e ninguém mora aí... – Beatriz, ao mesmo tempo em que falava, observava a reação do irmão.
A chuva, que era de verão, passou rapidamente. Assim que Jorginho percebeu não haver mais perigo em se molhar, pegou a mão da irmãzinha e gritou, enquanto corria:
- Vamos, Bia! Duvido você ganhar de mim!!!
E os dois correram, deixando a casa abandonada para trás.

Joel dos Santos Leitão (Novembro de 2008)